Racionalização (Laplanche e Pontalis, Vocabulário da Psicanálise):
Processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento, etc., cujos motivos verdadeiros não percebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada.
Formação reativa (Idem):
Atitude ou hábito psicológico de sentido oposto a um desejo recalcado e constituído em reação contra ele (o pudor opondo-se a tendências exibicionistas, por exemplo).
Em termos econômicos, a formação reativa é um contra-investimento de um elemento consciente, de força igual e de direção oposta ao investimento inconsciente.
[...] Do ponto de vista clínico, as formações reativas assumem um valor sintomático no que oferecem de rígido, de forçado, de compulsivo, pelos seus fracassos acidentais, pelo fato de levarem, às vezes diretamente, a um resultado oposto ao que é conscientemente visado (summum jus summa injuria).
A cultura que vê a racionalização como um processo psíquico de função defensiva a confunde, quase sempre, com o vilão da formação reativa. Vilão porque é sintoma, porque é defesa, porque é rigidez, e no nosso mundo não há espaço para rigidez, negatividade, crítica, nem defesa. “Você deve atacar!”, prega o pós-moderno liberal que atribui ao ataque a melhor defesa e dá ao “indivíduo único” a responsabilidade pelo próprio “futuro”…
Deixo de lado o desenvolvimento do parágrafo anterior e ressalto o início: racionalização e formação reativa se confundem no senso comum. Diz-se que alguém “racionaliza demais” quando se identifica uma atitude que se supõe que seja de formação reativa. Na verdade, pouco importa ao senso comum se os conceitos são diferentes ou mesmo se se aplicam. É sobre isto que quero discutir, não sobre psicanálise.
– É confortável quando você se esconde do que sente e racionaliza a tudo que pulsa e te desvia inesperadamente da sua rotina, mas seu problema talvez seja pensar demais e viver de menos!
É interessante que essa confusão aconteça, porque é justamente em meio a ela que as pessoas rejeitam de antemão qualquer busca às contradições vistas no cotidiano. Quem faz essa busca é uma pessoa chata, é pentelha, filosofa demais, pensa demais, racionaliza demais, quando deveria sentir mais, fazer mais, viver mais… nunca ficar parada, produzir. Viver é se emocionar. Viver é produzir. Racionalizar/reagir/criticar é parar para reclamar de si e dos outros “sem querer fazer nada para melhorar”.
No entanto, em meio a toda essa bagunça conceitual, racionalização é exatamente o que se faz para chegar a todas essas conclusões. É racionalizando que se conclui que alguém “se esconde do que sente”, e que isso “é confortável”, e que o problema é “pensar demais” porque não podemos “viver de menos”. É também racionalizando que se separa de forma maniqueísta a razão e a emoção (razão é vilã, emoção é heroína – literalmente). Adorno e Horkheimer já falaram sobre o esclarecimento que se mitifica de tanto querer destruir o mito (Dialética do Esclarecimento, cap.1), Nietzsche já falou sobre o intellegere emotivo e violento do ato de conhecer (A Gaia Ciência, aforismo 333), e ali eles denunciam os enganos convenientes dessa separação. Isso tudo que se diz sobre as emoções (e se vive em prol delas) é racionalizado, é fruto daquela razão chata, feia e boba.
“É confortável quando você se esconde do que sente e racionaliza a tudo que pulsa e te desvia inesperadamente da sua rotina“: isto não poderia ser dito exatamente da mesma forma aos “emocionáveis” que tentam esconder de si e dos outros que algo não está funcionando na vida florida das emoções? Que buscam também uma rotina das emoções (“viver demais e pensar de menos”)? Se “pensar de menos” for algo próximo a “fazer o que der na telha”, “viver o momento” (no sentido mais burguês do carpe diem), “não viajar”, etc., então nada deve mudar, já que é preciso se esquecer da história que constituiu o momento que se quer viver com tanta intensidade. Contudo, é impossível se esquecer da história, e disso todo mundo sempre soube. Portanto, é impossível “fazer o que der na telha” nesse sentido. E, além disso, o que está “dando” nessa telha o tempo todo, todos os dias? “Trabalhe, Compre, Divirta-se, Viva, Trabalhe, Compre, Divirta-se, Viva“. Essa verdadeira chuva pentelha permanente nas nossas testas lança também raios e relâmpagos que causam o curto-circuito da crença na equivalência entre esses imperativos.
Ora, que terreno perfeito para fazer apologia à prática impensada, rejeitar a crítica como práxis, eternizar o imediatismo positivo… e isso é viver?
Todo esse movimento é racionalizado. Toda essa emoção é um desespero perante a chuva que martela as nossas cabeças. Essa chuva pouco se importa se vivemos “demais” ou “de menos”, mas se interessa por nossa inércia. Justamente essa inércia que os “emocionáveis” acusam em quem “pensa demais” está presente neles mesmos. E “viver demais” significaria justamente se anestesiar com a diversão para não ter que lidar com o incômodo que essa chuva causa. Não chega nem a ser hedonismo, porque essa diversão não chega nem perto dos limites do que é socialmente estabelecido. E o pior é que essa chuva também somos nós, e todos sabemos disso, mas quem quer pensar sobre isso? Vamos viver que é melhor!
A oposição “Razão” x “Emoção” não existe, o que existe é a apologia disfarçada à desgraça cotidiana, que está aí enquanto pessoas querem viver o que é cada vez mais impossível de ser vivido.
estou com várias coisas fervendo na cabeça depois de ler esse texto! a gente precisa conversar depois!
abraço
Pessimista como sempre!! hehehehe.
Mas eu concordo, principalmente com oq vc falou sobre o Carpe Diem!…. ser otimista hj em dia eh eternizar o imediatismo positivo como vc disse, não há nada menos vivo e mais paralizante q isso, viver demais eh se movimentar com negatividade pra violência que a gente vê em tudo,, coisa q so quem “pensa demais” se prop~oe a fazer…… mas aih eh taxado de pessimista…. como na minha brincadeira aih em cima….. hehehehe todos nos estamos nessa!!!
Beijos!
Estamos mesmo… o tanto de vezes que falei “você está pensando demais” para mim mesmo ou para os outros não é brincadeira…