Ao crítico que não se apropria de suas potencialidades

Você olha para os acontecimentos, mas não quer olhar para a tua posição em meio a eles. Você só se aprofunda em abstrações seguras. Você se varre para debaixo do tapete-crítica. E aí embaixo há tanta pressão que você observa e aceita para si, tanta repressão consentida… mas você está coberto! Acaba se anulando, se diminuindo, e acredita ingenuamente que aos poucos faz o contrário. Cultiva pressões em si, para si, e engana-se em relação a estas com a crítica a pressões mais abstratas: as dos relacionamentos, da universidade, da sociedade, de todos os *entos, *ades e *ismos que te salvam do problema aterrorizante de ser um de seus focos de crítica. Uma expansão de idéias que serve à decisão de ignorar a implosão que acontece em você. Seja sincero consigo mesmo. Não é à tôa que você se irrita cada vez mais, se chateia cada vez mais, morre cada vez mais: não são apenas as pressões “lá fora” que poderiam cessar, não é apenas a desgraça que está acontecendo e se fortalecendo; é também você cedendo já demais, é você sabendo que pode agir de outras formas, é você se escondendo em sua postura que se diz crítica. Não é à tôa. Não é à tôa que você se fecha: com tanta pressão a que você se submete compulsivamente (e que portanto também cria), é risível acreditar que isso não daria na mais profunda merda do ser que se abre no discurso, mas se fecha perante os acontecimentos. Não é à tôa que vêm a você (e de você) julgamentos ridículos como “você pensa demais…“. Pelo contrário: no final das contas, você pensa pouco, pouco demais, e inevitavelmente age na quantidade e na qualidade inversamente proporcionais em relação a quanto e como poderia agir. Você faz merdas quando poderia não fazê-las, quando tem todas as condições para não fazê-las.

E não se engane, nem se esqueça: a sua situação não é única, mas ainda assim é uma delas.

Published in: on Tuesday, October 2, 2007 at 16:36 Comments (4)

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4 Comments Leave a comment.

  1. Parece q esse foi um post “eu, eu, eu” que nao foi bem “eu, eu, eu” tambem!!! Cabe a muita gte. Por isso o “vc, vc, vc”? hehehe.
    Quem sabe vc nao tah pensando em fazer algo diferente aih mesmo ja agora?
    Eu nao diria q vc pensa demais, mas vc fala de menos. Eh bom termos essa conversa!

  2. André… prepare-se pra levar umas broncas…

  3. bom, deixa eu pensar, mas não demais: isso me lembra uma conversa nossa, isso me lembra ler um espelho e isso me lembra você.
    rigidez, passado e reflexos. é interessante.

  4. ah se fosse um chapéu..


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