Palavras de dois gumes

[Modificado no dia 09, terça-feira]

O teatro, assim como a palavra, tem necessidade de ser deixado livre.
A obstinação em fazer que as personagens dialoguem sobre sentimentos, paixões, apetites e impulsos de ordem estritamente psicológica, em que uma palavra substitui inúmeras mímicas, uma vez que estamos no domínio da precisão, foi por causa dessa obstinação que o teatro perdeu sua verdadeira razão de ser e que estamos desejando um silêncio em que possamos ouvir melhor a vida. É no diálogo que a psicologia ocidental se expressa; e a obsessão com a palavra clara que diga tudo leva ao ressecamento das palavras.
[...]
Mas, se voltarmos, por pouco que seja, às fontes respiratórias, plásticas, ativas da linguagem, se relacionarmos as palavras aos movimentos físicos que lhes deram origem, se o aspecto lógico e discursivo da palavra desaparecer sob seu aspecto físico e afetivo, isto é, se as palavras em vez de serem consideradas apenas pelo que dizem gramaticalmente falando forem ouvidas sob seu ângulo sonoro, forem percebidas como movimentos, e se esses movimentos forem assimilados a outros movimentos diretos e simples tal como os temos em todas as circunstâncias da vida e como os autores não os têm suficientes em cena, a linguagem da literatura se recomporá, se tornará viva; e ao lado disso, como nas telas de alguns velhos pintores, os próprios objetos começarão a falar.

(Artaud, O teatro e seu duplo, quarta carta sobre a linguagem)

Aí pode estar uma rachadura da proposta de sempre expor e negar a neurose… a exposição e a negação não deveriam se limitar às palavras. Ainda assim, estas são necessárias. Mas ainda não percebi a linha entre a necessidade e o exagero. Para mim é claro que a negatividade vale por si só (não por seus resultados esperados), e que ela não consiste apenas em um bando de discussões sobre relacionamentos, mas sim em criar diferenças a partir dos atos – que incluem o diálogo –, reconhecer os movimentos que até então só têm sido congelados. O problema, talvez, seja o de ainda escolher a palavra entre os milhares de atos possíveis. No final das contas, existe uma primazia do diálogo. Mas talvez isso não seja um problema quando o uso do diálogo serve a algo maior que ele, maior que os relacionamentos de novelinha: a postura negativa e criativa. Assim, a palavra foge do fechamento em si mesma, e isso é precisamente o que faz com que ela seja livre (sem ser ignorada), com que ela não se resseque.

Mas essa é uma hipótese que precisa ser mais pensada e – pasmem, que contradição – sentida. Ou, ainda antes, a própria pergunta que a originou.

Published in: on Sunday, October 7, 2007 at 21:40 Comments (1)

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  1. A maior parte dos textos muito locos do Artaud foram escritos depois que ele usou Mescalina!!!
    feaihfeaahfeoieafoiufeafea

    dados incentivadores.


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