Impressões não desenvolvidas sobre o suicídio

O que é o risco do suicídio para alguém que escolhe encará-lo?
Nada além da vida.

Esquecemos ou não entendemos Nietzsche, engolimos as categorias estruturalistas de Durkheim (suicídio egoísta, altruísta, principalmente o anômico), da mesma forma que engolimos o mal-estar estrutural (“necessário”…!) da civilização de Freud. E não paramos nos dois: de lá para cá, o assunto só piorou.

O problema do “risco de suicídio” é uma irracionalidade tamanha, que serve mais para legitimar a imposição doente de limites à vida que qualquer outra coisa. O medo do suicídio – o medo da morte – é um dos movimentos da ode ao conforto, que se traduz em um réquiem para a morte em vida.

Fugir dos riscos de suicídio para se lançar ao trânsito assassino de carros? Não sair de casa e morrer para a TV?
Por que se impor um futuro? Por que planejar sua vida para que ela atinja um alto número de anos confortáveis? Vida longa à vida morta?

E todo mundo se pergunta se o melhor é viver uma Vida que talvez seja levada ao suicídio (uma vida em potência, liberta… sem confundir isto com hedonismo) ou uma vida confortável de muitos anos, aposentadoria, dinheiro em caixa para a família e angústia existencial. E há como afirmar que essa pergunta não seja perfeitamente cabível para nós, defuntos, sem que se esteja terrivelmente enganado?

A vida é o acontecimento, não é o futuro mortal. Como viver, enquanto se está preocupado com um momento inerte na abstração do tempo futuro? Esta é uma paralisia, um loop infinito dos mais neuróticos.
Essa vida paralisada pela morte, não por simples coincidência, é também a vida paralisada pelo desejo mediado pelo valor, o desejo da psicanálise freudiana, o desejo que pára numa sociedade octogenária que busca a falta em tudo.

Que potência tem essa vida? Se tudo o que se quer sinceramente fazer deve ser abandonado em frente ao risco da frustração, da angústia, da anomia e do suicídio?

Se o suicídio se tornar um risco cada vez maior no caminho de fazer acontecer sua potência em vida, o que há para ser feito senão insistir nesse caminho? Pois não haveria pior escolha a ser feita, nesse caso, que a de negar as potencialidades em função da adequação a um medo social da morte.
Este medo não é, ele mesmo, a nossa angústia fundamental?

O suicídio é um fenômeno que precisa ser visto com olhos mais sinceros. Deixamos de viver uma vida por medo da morte. O suicídio faz nos lembrarmos desse fato – ele nos afronta com esse fato… porque nós criamos o problema da morte. Mas não haverá risco algum desse demônio-suicídio-morte em meio à (re)criação da vida em potência.

 

OBS.: Pensamentos surgidos depois de uma conversa sobre o que fazer no futuro, na qual foi sugerido que eu buscasse encontrar um lugar, evitar a angústia de uma possível anomia… evitar as potencialidades e abraçar a quase-inércia institucional…

Published in: on Saturday, December 1, 2007 at 9:22 Comments (7)

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7 Comments Leave a comment.

  1. Vc simplificou, deixou passar uma coisa.
    Só p/pegar o exemplo de durkheim, como fica o suicídio egoísta, da pessoa que não necessariamente está vivendo a partir da potencialidade, está morrendo literalmente de neurose e se mata por não aguentar mais isso? Não dá p/não se preocupar com isso acontecendo mais e mais no mundo!
    Falar sobre suicídio é complicado, mesmo… não dá pra concluir oq vc conclui!

  2. OBS: Eba, voltou o blog!

  3. Ih, eu deixei passar *várias* coisas. E não concluí nada – lembre-se, são impressões não desenvolvidas… vieram à cabeça as lembranças de vários acontecimentos diferentes, logo depois de eu encostar no assunto em uma conversa. Estão em digestão, não estão paradas e tudo mais…

    Apesar desse ser um assunto sensível, para mim, pegar uma categoria estabelecida por Durkheim para começar a falar sobre o que ela representa é mais complicado que falar sobre suicídio. É como falar da pessoa que delira a partir da estrutura psicótica lacaniana, é como falar da “sociedade” (já uma personagem) a partir da pulsão de morte freudiana, ou de uma determinada lista de arquétipos supostamente universais e convenientemente divididos entre o gênero masculino e o feminino.
    São teorias que dão um chute no cu do seu objeto, que funcionam onde é esperado que funcionem, sem darem chance a qualquer movimento.

    Já passou da hora de pararmos de ser um bando de Procustos.

    Se existe o “suicida” que não agüenta mais o mundo e se mata, ao invés de isolá-lo no laboratório da ciência e do método para determinar padrões de identidade, riscos, possibilidades, toda a parafernália neurótica para medir a vida dele — e, conseqüentemente, para medir a nossa… enfim… ao invés de tudo isso, a gente poderia pensar sinceramente e agir a partir do que isso tiver a dizer sobre a nossa vida. O que te afeta num suicídio de alguém que não agüentou mais viver? Mas será que foi isso: “não agüentou mais”? Por que pensar nesses termos? Talvez por perceber alguma loucura que seja digna de não se agüentar mais? Será que essa loucura não lhe é estranha? Que loucura é essa? O que isso tem a ver com o cotidiano? O que fazer?

    Não me parece que o problema aqui seja o “risco” do suicídio.

    Foi por essa via que eu dirigi as impressões… sem pretensão alguma… certamente existem outras vias.

  4. Entendi melhor agora… é verdade, so o suicídio ser um assunto delicado já é motivo p/que nós (nós vivos, ou nós defuntos? :P) tenhamos o dobro de cautela p/entender que função essa delicadeza tem p/gente… pq de tanta fuga delicada a gente já morre na neurose…

    Entendo isso do suicídio não ser bem o problema…

    Melhor continuar a conversa fora daqui….

  5. Oh.

    Morrer é só um mau encontro.
    O existir se faz no proprio existir…

    deixem de tanto lero-lero senhores, nada mais autonomo do que tirar a propria vida; isso sim é uma prova de domínio de si; isso sim é uma afirmação de si e da vida.

    Num mundo que promove a morte gratuita dissolvida na vida, suicidar-se é uma postura.

    uh.
    uh.
    uh.

  6. Discordo do ponto da autonomia: não dá para dizer que o suicídio em si, ainda que no mundo dos defuntos, é autônomo. Esse é um pressuposto como qualquer outro. Não empurremos o suicídio lá para baixo, mas também não o elevemos aos céus…

    …porque não importa se existe ou não autonomia em meio ao fenômeno: o ponto realmente não é esse, porque o existir realmente se faz no próprio existir e o problema não é bem o risco de suicídio.

  7. Vou copiar e colar no sorocoisa. Não vou dar crédito até que você autorize. Quando autorizar, passa no sorocoisa e fala que sim, falou?

    Idéias interessantes. Divagações boas.


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