É possível observar que basta haver um contato só um pouco mais direto com as relações de trabalho que o risco de se submeter de bom grado à quebra de todo e qualquer posicionamento de resistência a essa escravidão aumenta exponencialmente. Nesse caso, na verdade, não se trata de um risco, mas de uma predisposição já antiga ao discurso da maioria, que se vela de acordo com o que convém para uma convivência livre de questões incômodas. No trajeto final do bacharelado em p$icologia, se isso já parecia estar claro antes, agora as evidências gritam. Não sou tão ingênuo a ponto de achar que a postura questionadora de várias pessoas quanto ao curso e às práticas p$icológicas lhes daria subsídios suficientes para que se dispusessem a resistir na hora H, na hora em que acreditassem (não deveriam acreditar) que precisam tomar decisões quanto ao que fazer com a própria vida no mundo adulto e monetário. Isso não acontece. O discurso do futuro estável vem com força, chuta o seu cu, joga cimento em volta de qualquer linha de raciocínio que até então remava nas águas agitadas do seu questionamento. Uma indicação aí, um estagiozinho aqui, um empreguinho ali, uma experienciazinha acolá, uma estabilidadezinha cá – um tapinha nas costas vindo das figuras paternas e logo se está pronto para o casamento e os filhos, o escritório/clínica/bolha e a espera religiosamente mensal e eterna por um salário que pague as contas intermináveis do próprio desejo flagelado. Nada disso é surpresa, tampouco exagero, ainda que eu escolha falar sobre isso num tom catastrófico. O trabalho abstrato nos puxa. É extremamente difícil livrar-se dele, se é que é possível. O discurso fascista nos puxa. E puxa. Puxa. PUXA. Para baixo, para cima, para todos os sentidos, todas as direções – pois ele é líquido. Não: não se trata de um “ele”, de uma entidade. Não somos puxados por porra nenhuma. Nos levamos, nós mesmos. Com o bom humor típico de um escravo reacionário. O trabalho somos nós. Nada disso é surpresa. Basta acordar e se deparar com a violência do despertador que você mesmo configurou, e aí estará você, rumo à indústria da vida. Basta captar o discurso que se segue logo após o “bom dia” protocolar das pessoas que vivem com você, e o valor-dinheiro-trabalho estará presente até na frase mais descompromissada. Também nas suas respostas, tão vivas quanto a inércia. Basta notar quando a tua crítica a qualquer irracionalidade decorrente das relações de trabalho só se manifesta em condições normais de temperatura e pressão. No caso da p$icologia, basta notar quando tudo muda de figura agora que as experiências na clínica finalmente chegaram: a roupagem crítica se assume como simples roupa que é, e é trocada por trajes, costumes, linguagens e predisposições que estejam perfeitamente compatíveis com a “imagem do p$icólogo”, devidamente socializada, aceita, em voga, estável, paralisada, mentirosa, hipócrita. Quem é você agora? Quem era você até então? Essas são perguntas que, a essa altura, essas pessoas já ignoram ou só respondem com o uso de um cartão de crédito; afinal, entraram oficial e orgulhosamente no jogo do futuro estável, cujas proibições incluem a da autonomia. “Essas pessoas” – eu, você, nós, pouco importa. Há sujeitos aqui? O que importa é que você dê mais importância à sinceridade consigo mesmo, com o que deseja, com o que se faz desejar, com o que seu corpo demanda (dualismos à parte); baixar a bola da armadilha que é o discurso sobre o “futuro”, baixar a bola da procura pelo que se acredita que é faltante; admitir que nada disso é o que você realmente quer que sua vida seja nesse exato momento; agir contra essas neuroses nas entranhas de toda e qualquer relação da qual você faça parte, de todas as formas possíveis e imagináveis, sejam elas graduais ou imediatas, contraditórias ou não, fragmentadas ou não (estas são condições irrelevantes quando há a disposição para criar). Não se trata de cobrar algo de si, mas de sempre dar prioridade ao movimento da sua vida. Não é uma solução. Não há respostas, nem pretensões. Não há *ismos que prestem aqui. É mais um discurso. Aproveite-o e dê a ele as suas ramificações.
Apelo ingênuo aos que se fisgaram com o anzol do mundo
The URI to TrackBack this entry is: http://infvernoexperiment.wordpress.com/2008/02/13/apelo-ingenuo-aos-que-se-fisgaram-com-o-anzol-do-mundo/trackback/
Apos os anos precedentes de bombardeios de códigos, comportamentos, referêcias, verdades voadoras, fixações dos mais diversos tipos, estrelas cadentes pintadas com Spray, presas a fios que mais remontam à marionetes: a prepação de mais um P$icólogo, pronto para atacar com o conhecimento específico de – teste estatísticos.
O palco do teatro os espera, depois do ensaio vem a encenação, depois do espetáculo, o choro por viver novamente a mesma mentira…
Esses últimos textos estão mais bravos, apaixonadões e apaixonantes! Acho que isso faz sentido por causa desses últimos dias q vc me contou. Esse estilo um pouco agressivo cai bem. Aparece no MSN no sábado?quero conversar sobre esses assuntos por lá!
são todas as coisas processos?
respondendo aa bea: são!
perguntando ao andré: essa submissão não seria parte desse movimento?? e o que fazer???