Reflexões acadêmicas (i.e., superficiais) sobre o fingimento

* Texto alterado em 14/02/2008. Formatação doida = preguiça. *

“Não tenho tido tempo para muitas coisas”. Essa é uma boa frase para se dizer aos outros. Moralmente aceitável, socialmente recompensável, dificilmente questionável. Quem “tem tempo” geralmente é vagabundo. Por isso, o mundo grita com orgulho: “Não temos tempo para muitas coisas!”. Nós, “acadêmicos”, sabemos bem o que é gritar esta frase. Nosso tempo se limita, quando muito, a estas coisas: ler, estudar, fichar, fazer prova, trabalhar, se divertir, ficar, namorar, trepar… fingir. Para fingir, sobra tempo. Quanto mais tempo para isso, melhor. O mundo finge: “Não temos tempo para muitas coisas [as que realmente importam]!”

Nós, “acadêmicos”, fingimos que lemos livros e mais livros, artigos e mais artigos, esquemas e mais esquemas de slides, xerocópias e mais xerocópias. Cumprimos metas e queremos cumpri-las. Um bando de servos voluntários. O conhecimento se reduz ao cronograma disciplinar. O conhecimento se reduz à essência do parágrafo. O mundo se reduz aos “capítulos” que cairão na prova, ou na “aula expositiva dialogada” do dia seguinte, ou no trabalho de conclusão de curso, ou na tese de mestrado/doutorado, ou no projeto a ser apresentado em algum congresso com palcos para os atores-palestrantes, ou na linha/área profissional a ser seguida. Ainda que esses “capítulos” sejam metódicos não-capítulos: aforismos, adendos ou conjuntos de notas explicativas – opa!, não: essas notas não importam. Tudo que importa, na verdade, é o que vale nota. Carimba-se uma medida na tua testa e você, estudante, fica feliz da vida por ter “se livrado” de mais uma. Carimba-se um índice de aprovação no teu cu e você, professor, não dá a mínima, porque tua meta é o doutorado, é a (mais-)pesquisa, é a produção que faz com que o superior não encha seu saco, é a nota produtiva. Fichamos textos para a produção. Lemos somente o suficiente para distribuir um conhecimento parcial do que se leu para a sala de aula ou para os grupos de discussão. “Entendemos tudo”, mas não entendemos nada. Fingimos que tudo isso se chama “estudo”. Um dos significados da palavra estudar é simular. Nada mais adequado. Toda prova é uma simulação, não só as simulações de vestibular. E não há simulação maior nesse sentido que o estudo de p$icologia. O “sujeito” existe aqui ou ali, nessa estrutura ou naquela outra, dependendo de quanta mais-valia a sociedade ganhará-sofrerá com isso. Dizemos que queremos nos entender, ou entender os outros, mas não nos movemos um só centímetro a favor de uma comunicação sincera. Enrolamos: trocamos palavras e gestos sob protocolos livres de incômodo e racionalidade. Fingir é a norma. Fingimos querer usar o conhecimento com “responsabilidade social”, ao passo que não temos nem ao menos posturas pessoais responsáveis. Não temos tempo para isso. É mais fácil não ter.

Fingimos nos divertir. Nossa diversão é distração, afastamento, esquecimento, não é diversão, não é para sermos diversos: é tudo igual, é tudo cópia, é tudo raso. Trabalho × diversão – uma abstração não existe sem a outra, e essa unilateralidade se traveste como oposição. Todos sabemos disso, mas fingimos não saber. As propagandas vão um pouco além desse fingimento: muitas já são bem cínicas há um bom tempo. Mas nós fingimos. Que bizarro é o mundo onde entes mercadológicos tendem a ser mais sinceros que o “sujeito” que acredita tê-los dominado. Nossa diversão se dá segundo o que está em vogue no marketing. Tudo num ritmo muito frenético. Mesmo o ritmo de quem curte assistir a um filme na casa de algum amigo é frenético. A “breja” deixa tudo mais suave e fácil, é verdade – mas ela não destrói a existência do trabalho de amanhã. O ambiente amigável de trabalho/aula ajuda, mas todos sabem que só há colegas, que a amizade valiosa se dá fora dessa esfera, e mesmo esse valor poderia ser questionado, simplesmente porque fora dessa esfera só há outras esferas separadas entre si antes de mais nada. A razão será sempre a da separação do trabalho, a lentidão e a facilidade terão de ser compensadas. E nós amamos muito tudo isso™, pois nossa recompensa será o salário, a nota acima da média, o reconhecimento do orientador/chefe/papai-mamãe. Nunca a diversão sincera.

Namoramos. Fingimos que temos um relacionamento baseado no amor e na confiança. Esse amor que é tudo, menos livre, e essa confiança que é nada além de imposição. Essa relação que “demanda sacrifícios de ambas as partes”… já se denuncia aí uma tensão sem fim de pessoas-partes que já não querem ser o que “têm” de ser para que a bizarrice-todo chamada de “namoro” se estabeleça. As coleiras – digo, as alianças – servem como aquelas boas, fedidas, ameaçadoras mijadas no que é agora nossa propriedade. Mas essas mijadas não estão bem nesta forma de anel: é na monogamia (admitida ou não) que o repúdio à “traição” bate à porta de todos esses namoros. Traição a quem, mesmo? À outra pessoa-parte do namoro? A traição a si mesmo de aceitar regras indesejadas não conta? Não há traição sem que tenha havido repressão. O que lhe diz o seu coração (símbolo absurdo do amor) nas muitas e inevitáveis horas que ele bate mais forte, trazendo consigo o suor frio e o rubor da pele, quando você, pessoa-parte, se vê em contato com alguém que não é a outra pessoa-parte, mas que você também deseja? “Sacrifique-se, sacrifique-se”? Ou será “Acorde, acorde”?

Mas para que insistir nessas questões, não? Tudo é lindo e tudo é amor, Deus quis™, obrigado e volte sempre – afinal, não há outros caminhos senão o da monogamia! Também não há outros caminhos para o “acadêmico” senão o universitário, assim como não há outros caminhos para o “sujeito” senão o do trabalho remunerado. Muitos namoros começam na universidade ou no ambiente de trabalho. Todos os outros também, indiretamente. Muitos terminam. Muitos terminam em casamento (literalmente). Todos incluem uma trepada: aquele ato, para alguns super amoroso e transcedental, que se constitui em masturbações conjuntas, em diversão, em distração. E certos p$icólogos ainda acham que o problema se dá quando o casal não trepa mais. Ora, qualquer coincidência entre “trabalho × diversão” e “namoro e trepadas” não é mera semelhança. Contudo, para nós que fingimos, tudo isso se trata apenas de coincidências.

Eu também finjo tanto que, no momento, não tenho saco para me aprofundar nas superficialidades acima. E, tal como acontece com o “acadêmico” em um dia de prova, o “trabalhador” nas horas de diversão e a pessoa-parte nos anos de namoro… toda e qualquer reflexão sobre a Vida pode se perder no pouco tempo que temos para “viver”.

Published in: on Saturday, September 29, 2007 at 19:59 Leave a Comment
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Published in: on Wednesday, September 19, 2007 at 19:04 Comments (2)
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“Razão” x “Emoção”: oposição falsa

Racionalização (Laplanche e Pontalis, Vocabulário da Psicanálise):

Processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento, etc., cujos motivos verdadeiros não percebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada.

Formação reativa (Idem):

Atitude ou hábito psicológico de sentido oposto a um desejo recalcado e constituído em reação contra ele (o pudor opondo-se a tendências exibicionistas, por exemplo).
Em termos econômicos, a formação reativa é um contra-investimento de um elemento consciente, de força igual e de direção oposta ao investimento inconsciente.
[...] Do ponto de vista clínico, as formações reativas assumem um valor sintomático no que oferecem de rígido, de forçado, de compulsivo, pelos seus fracassos acidentais, pelo fato de levarem, às vezes diretamente, a um resultado oposto ao que é conscientemente visado (summum jus summa injuria).

A cultura que vê a racionalização como um processo psíquico de função defensiva a confunde, quase sempre, com o vilão da formação reativa. Vilão porque é sintoma, porque é defesa, porque é rigidez, e no nosso mundo não há espaço para rigidez, negatividade, crítica, nem defesa. “Você deve atacar!”, prega o pós-moderno liberal que atribui ao ataque a melhor defesa e dá ao “indivíduo único” a responsabilidade pelo próprio “futuro”…

Deixo de lado o desenvolvimento do parágrafo anterior e ressalto o início: racionalização e formação reativa se confundem no senso comum. Diz-se que alguém “racionaliza demais” quando se identifica uma atitude que se supõe que seja de formação reativa. Na verdade, pouco importa ao senso comum se os conceitos são diferentes ou mesmo se se aplicam. É sobre isto que quero discutir, não sobre psicanálise.

– É confortável quando você se esconde do que sente e racionaliza a tudo que pulsa e te desvia inesperadamente da sua rotina, mas seu problema talvez seja pensar demais e viver de menos!

É interessante que essa confusão aconteça, porque é justamente em meio a ela que as pessoas rejeitam de antemão qualquer busca às contradições vistas no cotidiano. Quem faz essa busca é uma pessoa chata, é pentelha, filosofa demais, pensa demais, racionaliza demais, quando deveria sentir mais, fazer mais, viver mais… nunca ficar parada, produzir. Viver é se emocionar. Viver é produzir. Racionalizar/reagir/criticar é parar para reclamar de si e dos outros “sem querer fazer nada para melhorar”.

No entanto, em meio a toda essa bagunça conceitual, racionalização é exatamente o que se faz para chegar a todas essas conclusões. É racionalizando que se conclui que alguém “se esconde do que sente”, e que isso “é confortável”, e que o problema é “pensar demais” porque não podemos “viver de menos”. É também racionalizando que se separa de forma maniqueísta a razão e a emoção (razão é vilã, emoção é heroína literalmente). Adorno e Horkheimer já falaram sobre o esclarecimento que se mitifica de tanto querer destruir o mito (Dialética do Esclarecimento, cap.1), Nietzsche já falou sobre o intellegere emotivo e violento do ato de conhecer (A Gaia Ciência, aforismo 333), e ali eles denunciam os enganos convenientes dessa separação. Isso tudo que se diz sobre as emoções (e se vive em prol delas) é racionalizado, é fruto daquela razão chata, feia e boba.

É confortável quando você se esconde do que sente e racionaliza a tudo que pulsa e te desvia inesperadamente da sua rotina“: isto não poderia ser dito exatamente da mesma forma aos “emocionáveis” que tentam esconder de si e dos outros que algo não está funcionando na vida florida das emoções? Que buscam também uma rotina das emoções (“viver demais e pensar de menos”)? Se “pensar de menos” for algo próximo a “fazer o que der na telha”, “viver o momento” (no sentido mais burguês do carpe diem), “não viajar”, etc., então nada deve mudar, já que é preciso se esquecer da história que constituiu o momento que se quer viver com tanta intensidade. Contudo, é impossível se esquecer da história, e disso todo mundo sempre soube. Portanto, é impossível “fazer o que der na telha” nesse sentido. E, além disso, o que está “dando” nessa telha o tempo todo, todos os dias? “Trabalhe, Compre, Divirta-se, Viva, Trabalhe, Compre, Divirta-se, Viva“. Essa verdadeira chuva pentelha permanente nas nossas testas lança também raios e relâmpagos que causam o curto-circuito da crença na equivalência entre esses imperativos.

Ora, que terreno perfeito para fazer apologia à prática impensada, rejeitar a crítica como práxis, eternizar o imediatismo positivo… e isso é viver?

Todo esse movimento é racionalizado. Toda essa emoção é um desespero perante a chuva que martela as nossas cabeças. Essa chuva pouco se importa se vivemos “demais” ou “de menos”, mas se interessa por nossa inércia. Justamente essa inércia que os “emocionáveis” acusam em quem “pensa demais” está presente neles mesmos. E “viver demais” significaria justamente se anestesiar com a diversão para não ter que lidar com o incômodo que essa chuva causa. Não chega nem a ser hedonismo, porque essa diversão não chega nem perto dos limites do que é socialmente estabelecido. E o pior é que essa chuva também somos nós, e todos sabemos disso, mas quem quer pensar sobre isso? Vamos viver que é melhor!

A oposição “Razão” x “Emoção” não existe, o que existe é a apologia disfarçada à desgraça cotidiana, que está aí enquanto pessoas querem viver o que é cada vez mais impossível de ser vivido.

Published in: on Saturday, September 15, 2007 at 16:04 Comments (3)
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Do quinquilhonésimo retorno ao “blogar”

A cada um dos meus retornos a essa prática de nome infeliz, o processo parece ser mais claro.

Se há muito tempo eu considero o blog como um afastador de pessoas disfarçado de aproximador (o instrumento máximo para o pior uso da internet), de uns tempos para cá já o considero também como um organizador de ideário (por falta de uma expressão melhor). Ora, talvez desde o meu primeiro blog eu já soubesse que organizaria minhas idéias por meio dele; mas as idéias mudam. Juntamente com elas, tanto a noção de “organização” quanto a sua importância mudaram de lá para cá.

Já que antes a ênfase do “blogar” estava quase totalmente em um apelo catártico, um apelo – raramente assumido – por atenção (fosse ela dos leitores reais ou dos imaginários), a organização das idéias não valia tanto a pena. Para que se comprometer com o que foi vomitado, se o que importa, o que resta, é que esse vômito seja reconhecido e lambido (porque o apelo era nojento, mesmo) por outras pessoas?

Caso tenha existido mesmo uma organização de idéias, ela se consistiu no ato consciente de dirigi-las ao espaço público socialmente (infelizmente) aceitável que foi (ou ainda é?) a comunidade crescente de ego-blogs. Ou seja, eu decidi que não sairia escrevendo em paredes de banheiros públicos inundados de mijo, nem nas paredes do meu quarto, nem em cadernos, nem no Notepad, nem na minha testa, nem na derme dos meus pulsos… porque nada disso era tão cool quanto publicar um blog. Escolhi um espaço específico e tive motivações específicas para vomitar o que pensava. À estruturação dessa escolha alguns profissionais rotuladores chamam de Adolescência; eu não a chamaria de bosta alguma, pois não sou psicólogo.

Quando percebi mais tarde que vômito algum era lambido, mas sim que tudo passava a ser perfumado pelos outros e por mim… caí em negação, caguei, apaguei tudo, mandei tudo à merda. Quando percebi a negação, voltei a querer ser cool com novos blogs. Afinal, devemos negar a negação, não é? E assim começou um ciclo, uma bola de neve que pretendo encerrar aqui. Porque agora o que penso sobre “organizar minhas idéias” tem outro sentido, de maior importância.

Tenho muitas idéias, mas quase todas se perdem no contato com os outros. Tenho tentado superar esse problema. De todos os ambientes, o acadêmico é o que mais tem me mostrado que eu quero e preciso me expressar melhor, que o vômito catártico precisa dar mais lugar à comunicação. No entanto, ao mesmo tempo que o ambiente acadêmico me mostra isso, também tem sido lá que minhas idéias têm se perdido mais e mais, talvez porque eu ainda insista mais em bloquear o vômito do que em me comunicar de fato.

Há pouco tempo atrás, falando para um amigo sobre essas idéias que eu perdia durante certas discussões, ele sugeriu que eu escrevesse o que passasse pela cabeça na hora que surgissem tais idéias, a fim de organizá-las para que eu pudesse falar delas quando pudesse. Foi algo que já havia sido sugerido a mim diversas vezes, mas que até então eu nunca havia levado a sério (talvez por achar que conseguiria resolver o problema sem precisar de artifícios como esse, como se eu fosse fodão o suficiente para nunca dar passos para trás rumo a uma onipotência). Pois bem, resolvi levar a sério dessa vez; já é rotina para mim experimentar e cutucar os preconceitos que tenho de mim mesmo.

Fiz o que foi sugerido algumas vezes e isso realmente me ajudou, mas isso não é relevante aqui. O que importa é que de novo eu estava usando a escrita, mas desta vez para tentar me comunicar de fato. Ora, isso mudou a perspectiva de muitas coisas, inclusive em relação aos blogs. Se eu consegui escrever num papel para organizar as idéias, certamente eu posso fazer o mesmo em um blog. Só o fato de eu pensar assim já configura uma nova situação, pois antes a questão era só esperar por línguas alheias para os meus vômitos (eu insisto nas nojeiras), restritos ao espaço blogueiro cool ou à balada gótica mais próxima. Já agora posso falar sobre muito mais assuntos que antes, da forma mais lenta, chata, pedante (por que não?), incompreensível que for; ou da forma mais superficial, boba, compreensível; ou esquemática, ou lírica, ou escrota e nojenta… Sem muitas censuras, contanto que com isso eu organize o que penso e possa utilizar os resultados em outros espaços. E se eu conseguir organizar tudo e, de quebra, me comunicar também pela forma escrita, melhor ainda.

Confio nessa nova possibilidade, mas também assumo o risco de ser possível, por outro lado, que todo esse blá-blá-blá seja apenas mais um giro de 360° da bola de neve blogueira. É claro que ainda tenho essa coisa de querer falar de mim – vide o número de “eus” que tem neste texto. Não me livro disso tão facilmente, sou arrogante e ainda preciso quebrar mais ovos nessa área. É um risco aceitável – o dia que eu estiver livre das contradições aparentes, estarei morto.

 

É tudo isso que o subtítulo deste blog tenta explicar. Quanto ao título, fica para outra vez.

 

No mais, que se preparem para textos gigantes grandes os preparados e as preparadas. Isso aqui não é funk.

Published in: on Friday, September 14, 2007 at 2:06 Comments (2)
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